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A ossada encontrada no Morro de Sapucaia
Por Pedro Nicola

.

    Esta foi uma história verídica que aconteceu lá nos idos dos anos 80 quando do início da carreira de muita repercussão e sucesso do jornalista Pedro Nicola.

Sala de redação do jornal Vale dos Sinos de São Leopoldo. O titilar das velhas máquinas de escrever  Olivetti se ouviam ao longe. As editorias de esportes, social, geral e política eram as que mais faziam barulho – isso pelo menos durante o período normal de expediente do jornal.

E a editoria de polícia não trabalhava?  Sim, mas seu horário era especial, assim como suas tarefas. A editoria de polícia invariavelmente era a que se encarregava de “puxar” a manchete de capa. Até por isso o repórter de polícia, seu amigo aqui, era o que menos permanecia da redação. Ele vinha para baixar as matérias no final de tarde. Batia o ponto cedinho da manhã e partia para os plantões das delegacias, necrotérios, visitava o Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar. Tudo em busca de notícias. Recorria não só São Leopoldo, mas Portão, Sapucaia do Sul e Esteio.

É bom lembrar que no início desta década o jornalismo era mais romântico, isso significa que os leitores tinham mais tempo para ler, aliás, naquele tempo (desculpe a redundância e repetição de termos) o tempo andava mais devagar. As famílias eram mais famílias. E ninguém melhor do que um bom jornalista para proporcionar entretenimento e relatar fatos (não factóides) de uma maneira descontraída, e acima de tudo com narrações  ricas em detalhes, mas sem perder a essência do jornalismo. Na época não existia a tal de internet, e-mail, comunidades on-line, etc. Até a televisão não era concorrente à altura do bom e velho jornal. Estes eram lidos, comentados e as notícias se espalhavam como moscas no mel. Nos velhos ônibus “Centralões” entre a região do Vale dos Sinos  e Porto Alegre ou nos “Sinoscap” que fazem a linha interna de  São Leopoldo. E até nas lancherias onde os comerciários se reuniam na Rua Grande (via principal da cidade)  para tomar café antes do expediente. A propósito. Naquele tempo se começava a trabalhar as 07h30min da manhã. Apesar  da impressão do tempo transcorrer mais devagar – todos levantavam cedo e a correria do dia-a-dia iniciava também mais cedo.

Vamos aos fatos.

Numa dessas passadas na redação – lá perto do meio-dia para saber se haviam deixado algum recado, o chefe de redação entregou para mim um número sublinhado em vermelho  pedindo que ligasse urgente. Fui ao telefone  e liguei. Era da delegacia de polícia de Sapucaia do Sul.  Me identifiquei e logo passaram para o chefe de investigação;

-“Alô, Pedro Pena, temos uma incursão hoje de tarde  ao Moro de Sapucaia conferir uma denúncia. Disseram aqui no plantão que viram uma ossada humana. Temos que ver se é de algum desaparecido. Tu quer ir? Será que tu tem estômago para isso?”

-“Claro, me deixaeu ver com meu chefe. Respondo em seguida.”

Minutos se passaram.

-“Voltei, estás aí?

- “Sim, o que deu.”

- “Tudo OK. Que horas temos que estar aí?”

- “Te esperaremos cedo. Planejamos sair aqui da DP aí pelas 13h30min pode vir nesta

hora?”

“Claro! Até mais.

- “Inté.Combinado.”

13h00min o táxi estaciona na frente do jornal. Tudo certo. Errado. Surgiu uma dificuldade de última hora. O fotógrafo  titular do jornal não havia sido encontrado a tempo. E agora. Um caso de manchete de capa sem foto – fora de questão. O tempo urgia e nada. Até que surgiu uma solução. E esta veio do departamento social. Fomos informados que eles estavam com um estagiário na ponta da agulha. Perguntaram se servia. Claro que sim respondi. Empresta para ele a Pentax do laboratório, entra no táxi e vamos sair.

Táxi?

Sim – o jornal não tinha carro para locomoção e usar o serviço de táxi era mais barato.  Isso para não dizer conveniente.

Com estagiário à tira colo   embarcamos no Fuscão e rumamos para Sapucaia. Pelo atalho do mato da Unisinos  a distância de pouco mais de 3,5 quilômetros entre as duas cidades era percorrida em pouco mais de 15 minutos. Adentrando na cidade de Sapucaia ir até a DP não demorava muito – o único entrave eram as sinaleiras. Mas se as pegássemos de bom humor e todas no sinal verde rapidamente estaríamos no horário estabelecido.

Não deu outra. Uns minutinhos para cá – outros para lá  não incomodaram os inspetores que estavam na frente do plantão nos aguardando. Como  chegar no local era meio que complicado e difícil para as viaturas – a solução encontrada foi decorrer ao carro guincho.

Desta forma liberamos o táxi e embarcamos no furgão. Éramos sete. Do jornal dois. O fotógrafo e eu. Os demais eram os três investigadores e o motorista do furgão. Mas pêra aí. Somando são seis. E o sétimo integrante? Era o taxista que não quis perder a aventura. Três na gabine e quatro na caçamba.

Assim começou a aventura.

50 minutos depois de sairmos da delegacia e muitos sobressaltos morro acima finalmente o velho caminhão foi encostando-se à beira da estrada. Estrada. Bem não podemos considerar estrada aquele caminho, na verdade era mais uma trilha  -  mas de qualquer forma estávamos ali e tínhamos trabalho a fazer. O tempo conspirava contra nós.

Após descermos o grupo capitaneado pelo inspetor chefe da delegacia de Sapucaia tirou um papel já meio amarrotado do bolso de trás da calça de brim – olhou atentamente as anotações que fizera há umas horas, tentou se localizar e decidiu seguir uma rota conforme sua experiência e intuição de policial. Conferiu se a arma estava bem firme na cintura – deu de mão num galho de árvore caído – o submeteu a uma breve limpeza tirando todas as folhas transformando-o num instrumento útil de apoio para enfrentar a mata e o terreno íngreme. De posse do cajado no melhor estilo “Moisés na Montanha”. Prosseguimos em fila indiana em busca da tal ossada humana.

Segundo as informações o tal corpo, ou que sobrara do corpo – estaria próximo de uma grande figueira do mato abaixo da escarpa de basalto. Só que isso era um problema. Se nosso guia houvesse sido prudente e comunicado ao motorista o nosso provável destino não estaríamos daquela situação. A pedreira ficava do outro lado do morro. Que dureza. Ir caminhando ainda era a rota mais curta, pois, se retornássemos ao caminhão e até ele dar toda a volta o dia certamente estaria perdido.

O sol estava declinando quando finalmente chegamos ao tal local. Realmente a informação procedia. A grande figueira ao longe se avistava, mas naquela distância qualquer conclusão seria conjecturar. Mesmo de binóculos não se via nada, pois o pastiçal nativo estava alto e dominava o local. A solução era caminhar mais uns cerca de 400 metros, talvez mais.  Porém uma olhada mais atenta ao alto podia-se ver alguns urubus voando em círculo. Era um bom sinal. Ali tinha carniça. Estávamos no caminho certo e a informação realmente procedia.

O chefe de investigação bateu com mão espalmada em minhas costas e disse:

-“Aí Pedrão, sou um pai prá ti – estou te dando em primeira mão e em exclusividade um presunto fresquinho fresquinho, hein, que me diz?”

Dei de ombros olhei para fotógrafo que estava meio branco – num misto de cansaço e talvez até estivesse assustado. O guri tinha na época uns 16 anos e aquela era, segundo consta, a primeira experiência dele e caminhar junto a uns malucos no mato adentro atrás de uma ossada ou cadáver certamente mexeu com seu emocional – e comentei:

-“E aí, tá gostando. Que aventura. Aposto que tu não ias conseguir nem a quarta parte desta aventura fazendo fotos de esporte, política e muito menos social, aproveite!”

Com um sorriso amarelo ele acenou positivamente com a cabeça, mas não disse nenhuma palavra.

Seguimos caminhando. O mau cheiro atestava que o “tesouro estava próximo” talvez alguns passos.

-“Cuidado aí pessoal onde pisam, não vão tropeçar no presunto!” não cansava de dizer o Ayres, assim vou chamar o chefe de investigação, não obstante não era este o verdadeiro nome dele.

De qualquer forma Ayres ordenou para que ficássemos  esperando enquanto ele apartando a vegetação com seu cajado de Moisés  foi conferir o estado do suposto corpo. Foi uma decisão meramente pericial.

Desapareceu dentre as capoeiras de mais de um metro de altura e, após um longo tempo – o silêncio foi quebrado por um sonoro:

-“*P.Q.P.! (*para um bom entendedor, esta abreviatura revela o que ele esbravejou revelando seu espanto). Pessoal, venham ver o estado do nosso amigo aqui. Parece que realmente não sobreviveu a queda”.

O ser que ali estava – com certeza havia se estatelado no chão após uma queda do alto do penhasco. Um tombo de respeito. E para piorar a situação dele - sua morte não ocorrera ali, daquele local – com certeza se arrastara ou fora arrastado até ali. Estava no mínimo uns 25 ou mais metros do sopé do penhasco.  Para ele estar naquela posição deveria ter saltado para frente e não simplesmente caído. Se realmente saltou, seria caso de suicídio. Em outra situação – e investigação deveria subir até o alto da escarpa para ver se havia sinais de luta ou de outras pegadas. Se assim fosse invés de suicídio – aquilo se transformaria em uma investigação de homicídio.

Mas de qualquer sorte – os animais silvestres e carniceiros já haviam até descarnado o corpo. Mesmo sem os olhos e visivelmente com a língua arrancada – puderam identificar o corpo e atestaram tratar-se de uma das cabras dos moradores nas redondezas do Morro de Sapucaia.

E agora. Toda uma operação de busca para culminar num veredito patético e vexatório.

-“Não sei quanto a vocês, mas  no caminho de volta eu penso em uma desculpa para dar ao nosso chefe. Passamos o dia todo fora e buscando um cadáver humano nos deparamos com uma ossada de cabrito. Com certeza não nos sairemos bem! Mas de qualquer forma não digam absolutamente nada a ninguém, e isso vale a vocês da DP. Matem no peito e digam que estão investigando. Melhor. Não digam nada. Esperem. Amanhã o que for publicado no jornal vocês deverão confirmar com toda veemência! Combinando? ” 

 

Estávamos retornando pelo atalho da estrada que corta  o mato da Unisinos e perguntei ao fotógrafo quantas fotos havia feito. E ele respondeu aquilo que eu não gostaria de ter ouvido:

-“Nenhuma, me desculpe, como não encontraram a pessoa eu achei que não deveria fotografar aquilo lá”.

 A situação de mal ficou pior. Não tínhamos o presunto e agora nem fotos que atestassem nossa ida na tal procura. E foi aí que entrou a genialidade do nosso repórter aqui. Lembrou dos casos narrados pelos saudosos e amigos professores de jornalismo Antoninho Gonzáles e Shardong quando contavam de suas aventuras nos jornais Noticias Populares e O Dia do Rio de Janeiro na década de 1950. Pedi para o motorista estacionar no acostamento, ao lado da estrada, que eu tinha que descer.

Sem entender ele atendeu. Desci e caminhei floresta de eucaliptos adentro. Foi aí que tive a grande idéia.

Voltei correndo e pedi para que ambos me acompanhassem e fomos até um lugar ermo e sem identificação de onde nos encontrávamos. Pedi para o motorista:

-“Tira tuas roupas, logo, me dê. Não perca tempo”.

-“Que isso tá me estranhando, sai de mim jacaré...” se defendeu o taxista.

Mas era um caso de vida ou morte. Se não arranjássemos um bom argumento para nosso sumiço a tarde toda – certamente nossos empregos estariam em risco.

Peguei as roupas dele, levei até um local minuciosamente e estrategicamente escolhido  - ajeite-as de forma convincente, coloquei gravetos secos de eucaliptos que muito se assemelham com ossos humanos  e pedi para que o fotógrafo fizesse seu trabalho. O restante seria completado no laboratório e na máquina de escrever.

Sem fugir da verdade por completo a prova deste caso está na foto e na manchete acima no jornal da época que foi escaneado.

É claro que todos estes detalhes narrados anteriormente não foram mencionados no corpo da matéria. Contei, sim, da difícil incursão ao Morro de Sapucaia, destaquei o valoroso trabalho dos inspetores e investigadores de Sapucaia do Sul, mas também deixei margem para futuras suítes (que em sínteses são pequena matérias que lembram o caso e acompanham as investigações).

Aqui narrei um, apenas um e tão somente um -  dos tantos casos de reportagens policiais que tenho em minha vida jornalística na editoria de polícia.  Em breve darei aos leitores deste seleto site do amigo Júlio  o privilégio de lerem outras aventuras.





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