Sala de redação do jornal
Vale dos Sinos de São Leopoldo. O titilar das velhas máquinas de escrever
Olivetti se ouviam ao longe. As editorias de esportes, social, geral e política
eram as que mais faziam barulho – isso pelo menos durante o período normal de
expediente do jornal.
E a editoria de polícia não
trabalhava? Sim, mas seu horário era especial, assim como suas tarefas. A
editoria de polícia invariavelmente era a que se encarregava de “puxar” a
manchete de capa. Até por isso o repórter de polícia, seu amigo aqui, era o que
menos permanecia da redação. Ele vinha para baixar as matérias no final de
tarde. Batia o ponto cedinho da manhã e partia para os plantões das delegacias,
necrotérios, visitava o Corpo de Bombeiros e a Brigada Militar. Tudo em busca de
notícias. Recorria não só São Leopoldo, mas Portão, Sapucaia do Sul e Esteio.
É bom lembrar que no início
desta década o jornalismo era mais romântico, isso significa que os leitores
tinham mais tempo para ler, aliás, naquele tempo (desculpe a redundância e
repetição de termos) o tempo andava mais devagar. As famílias eram mais
famílias. E ninguém melhor do que um bom jornalista para proporcionar
entretenimento e relatar fatos (não factóides) de uma maneira descontraída, e
acima de tudo com narrações ricas em detalhes, mas sem perder a essência
do jornalismo. Na época não existia a tal de internet, e-mail, comunidades
on-line, etc. Até a televisão não era concorrente à altura do bom e velho
jornal. Estes eram lidos, comentados e as notícias se espalhavam como moscas no
mel. Nos velhos ônibus “Centralões” entre a região do Vale dos Sinos e
Porto Alegre ou nos “Sinoscap” que fazem a linha interna de São Leopoldo.
E até nas lancherias onde os comerciários se reuniam na Rua Grande (via
principal da cidade) para tomar café antes do expediente. A propósito.
Naquele tempo se começava a trabalhar as 07h30min da manhã. Apesar da
impressão do tempo transcorrer mais devagar – todos levantavam cedo e a correria
do dia-a-dia iniciava também mais cedo.
Vamos aos
fatos.
Numa dessas passadas na
redação – lá perto do meio-dia para saber se haviam deixado algum recado, o
chefe de redação entregou para mim um número sublinhado em vermelho
pedindo que ligasse urgente. Fui ao telefone e liguei. Era da delegacia de
polícia de Sapucaia do Sul. Me identifiquei e logo passaram para o chefe
de investigação;
-“Alô, Pedro Pena, temos
uma incursão hoje de tarde ao Moro de Sapucaia conferir uma denúncia.
Disseram aqui no plantão que viram uma ossada humana. Temos que ver se é de
algum desaparecido. Tu quer ir? Será que tu tem estômago para
isso?”
-“Claro, me deixaeu ver com
meu chefe. Respondo em seguida.”
Minutos se
passaram.
-“Voltei, estás
aí?
- “Sim, o que
deu.”
- “Tudo OK. Que horas temos
que estar aí?”
- “Te esperaremos cedo.
Planejamos sair aqui da DP aí pelas 13h30min pode vir nesta
hora?”
“Claro! Até
mais.
-
“Inté.Combinado.”
13h00min o táxi estaciona
na frente do jornal. Tudo certo. Errado. Surgiu uma dificuldade de última hora.
O fotógrafo titular do jornal não havia sido encontrado a tempo. E agora.
Um caso de manchete de capa sem foto – fora de questão. O tempo urgia e nada.
Até que surgiu uma solução. E esta veio do departamento social. Fomos informados
que eles estavam com um estagiário na ponta da agulha. Perguntaram se servia.
Claro que sim respondi. Empresta para ele a Pentax do laboratório, entra no táxi
e vamos sair.
Táxi?
Sim – o jornal não tinha
carro para locomoção e usar o serviço de táxi era mais barato. Isso para
não dizer conveniente.
Com estagiário à tira colo
embarcamos no Fuscão e rumamos para Sapucaia. Pelo atalho do mato da
Unisinos a distância de pouco mais de 3,5 quilômetros entre as duas
cidades era percorrida em pouco mais de 15 minutos. Adentrando na cidade de
Sapucaia ir até a DP não demorava muito – o único entrave eram as sinaleiras.
Mas se as pegássemos de bom humor e todas no sinal verde rapidamente estaríamos
no horário estabelecido.
Não deu outra. Uns
minutinhos para cá – outros para lá não incomodaram os inspetores que
estavam na frente do plantão nos aguardando. Como chegar no local era meio
que complicado e difícil para as viaturas – a solução encontrada foi decorrer ao
carro guincho.
Desta forma liberamos o
táxi e embarcamos no furgão. Éramos sete. Do jornal dois. O fotógrafo e eu. Os
demais eram os três investigadores e o motorista do furgão. Mas pêra aí. Somando
são seis. E o sétimo integrante? Era o taxista que não quis perder a aventura.
Três na gabine e quatro na caçamba.
Assim começou a
aventura.
50 minutos depois de
sairmos da delegacia e muitos sobressaltos morro acima finalmente o velho
caminhão foi encostando-se à beira da estrada. Estrada. Bem não podemos
considerar estrada aquele caminho, na verdade era mais uma trilha -
mas de qualquer forma estávamos ali e tínhamos trabalho a fazer. O tempo
conspirava contra nós.
Após descermos o grupo
capitaneado pelo inspetor chefe da delegacia de Sapucaia tirou um papel já meio
amarrotado do bolso de trás da calça de brim – olhou atentamente as anotações
que fizera há umas horas, tentou se localizar e decidiu seguir uma rota conforme
sua experiência e intuição de policial. Conferiu se a arma estava bem firme na
cintura – deu de mão num galho de árvore caído – o submeteu a uma breve limpeza
tirando todas as folhas transformando-o num instrumento útil de apoio para
enfrentar a mata e o terreno íngreme. De posse do cajado no melhor estilo
“Moisés na Montanha”. Prosseguimos em fila indiana em busca da tal ossada
humana.
Segundo as informações o
tal corpo, ou que sobrara do corpo – estaria próximo de uma grande figueira do
mato abaixo da escarpa de basalto. Só que isso era um problema. Se nosso guia
houvesse sido prudente e comunicado ao motorista o nosso provável destino não
estaríamos daquela situação. A pedreira ficava do outro lado do morro. Que
dureza. Ir caminhando ainda era a rota mais curta, pois, se retornássemos ao
caminhão e até ele dar toda a volta o dia certamente estaria
perdido.
O sol estava declinando
quando finalmente chegamos ao tal local. Realmente a informação procedia. A
grande figueira ao longe se avistava, mas naquela distância qualquer conclusão
seria conjecturar. Mesmo de binóculos não se via nada, pois o pastiçal nativo
estava alto e dominava o local. A solução era caminhar mais uns cerca de
400
metros, talvez mais. Porém uma olhada mais atenta ao
alto podia-se ver alguns urubus voando em círculo. Era um bom sinal. Ali
tinha carniça. Estávamos no caminho certo e a informação realmente procedia.
O chefe de investigação
bateu com mão espalmada em minhas costas e disse:
-“Aí Pedrão, sou um pai prá
ti – estou te dando em primeira mão e em exclusividade um presunto fresquinho
fresquinho, hein, que me diz?”
Dei de ombros olhei para
fotógrafo que estava meio branco – num misto de cansaço e talvez até estivesse
assustado. O guri tinha na época uns 16 anos e aquela era, segundo consta, a
primeira experiência dele e caminhar junto a uns malucos no mato adentro atrás
de uma ossada ou cadáver certamente mexeu com seu emocional – e
comentei:
-“E aí, tá gostando. Que
aventura. Aposto que tu não ias conseguir nem a quarta parte desta aventura
fazendo fotos de esporte, política e muito menos social,
aproveite!”
Com um sorriso amarelo ele
acenou positivamente com a cabeça, mas não disse nenhuma
palavra.
Seguimos caminhando. O mau
cheiro atestava que o “tesouro estava próximo” talvez alguns passos.
-“Cuidado aí pessoal onde
pisam, não vão tropeçar no presunto!” não cansava de dizer o Ayres, assim vou
chamar o chefe de investigação, não obstante não era este o verdadeiro nome
dele.
De qualquer forma Ayres
ordenou para que ficássemos esperando enquanto ele apartando a vegetação
com seu cajado de Moisés foi conferir o estado do suposto corpo. Foi uma
decisão meramente pericial.
Desapareceu dentre as
capoeiras de mais de um metro de altura e, após um longo tempo – o silêncio foi
quebrado por um sonoro:
-“*P.Q.P.! (*para um bom
entendedor, esta abreviatura revela o que ele esbravejou revelando seu espanto).
Pessoal, venham ver o estado do nosso amigo aqui. Parece que realmente não
sobreviveu a queda”.
O ser que ali estava – com
certeza havia se estatelado no chão após uma queda do alto do penhasco. Um tombo
de respeito. E para piorar a situação dele - sua morte não ocorrera ali, daquele
local – com certeza se arrastara ou fora arrastado até ali. Estava no mínimo uns
25 ou mais metros do sopé do penhasco. Para ele estar naquela posição
deveria ter saltado para frente e não simplesmente caído. Se realmente saltou,
seria caso de suicídio. Em outra situação – e investigação deveria subir até o
alto da escarpa para ver se havia sinais de luta ou de outras pegadas. Se assim
fosse invés de suicídio – aquilo se transformaria em uma investigação de
homicídio.
Mas de qualquer sorte – os
animais silvestres e carniceiros já haviam até descarnado o corpo. Mesmo sem os
olhos e visivelmente com a língua arrancada – puderam identificar o corpo e
atestaram tratar-se de uma das cabras dos moradores nas redondezas do Morro de
Sapucaia.
E agora. Toda uma operação
de busca para culminar num veredito patético e vexatório.
-“Não sei quanto a vocês,
mas no caminho de volta eu penso em uma desculpa para dar ao nosso chefe.
Passamos o dia todo fora e buscando um cadáver humano nos deparamos com uma
ossada de cabrito. Com certeza não nos sairemos bem! Mas de qualquer forma não
digam absolutamente nada a ninguém, e isso vale a vocês da DP. Matem no peito e
digam que estão investigando. Melhor. Não digam nada. Esperem. Amanhã o que for
publicado no jornal vocês deverão confirmar com toda veemência! Combinando?
”
Estávamos retornando pelo
atalho da estrada que corta o mato da Unisinos e perguntei ao fotógrafo
quantas fotos havia feito. E ele respondeu aquilo que eu não gostaria de ter
ouvido:
-“Nenhuma, me desculpe,
como não encontraram a pessoa eu achei que não deveria fotografar aquilo
lá”.
A situação de mal
ficou pior. Não tínhamos o presunto e agora nem fotos que atestassem nossa ida
na tal procura. E foi aí que entrou a genialidade do nosso repórter aqui.
Lembrou dos casos narrados pelos saudosos e amigos professores de jornalismo
Antoninho Gonzáles e Shardong quando contavam de suas aventuras nos jornais
Noticias Populares e O Dia do Rio de Janeiro na década de 1950. Pedi para o
motorista estacionar no acostamento, ao lado da estrada, que eu tinha que
descer.
Sem entender ele atendeu.
Desci e caminhei floresta de eucaliptos adentro. Foi aí que tive a grande
idéia.
Voltei correndo e pedi para
que ambos me acompanhassem e fomos até um lugar ermo e sem identificação de onde
nos encontrávamos. Pedi para o motorista:
-“Tira tuas roupas, logo,
me dê. Não perca tempo”.
-“Que isso tá me
estranhando, sai de mim jacaré...” se defendeu o taxista.
Mas era um caso de vida ou
morte. Se não arranjássemos um bom argumento para nosso sumiço a tarde toda –
certamente nossos empregos estariam em risco.
Peguei as roupas dele,
levei até um local minuciosamente e estrategicamente escolhido - ajeite-as
de forma convincente, coloquei gravetos secos de eucaliptos que muito se
assemelham com ossos humanos e pedi para que o fotógrafo fizesse seu
trabalho. O restante seria completado no laboratório e na máquina de escrever.
Sem fugir da verdade por
completo a prova deste caso está na foto e na manchete acima no jornal da época
que foi escaneado.
É claro que todos estes
detalhes narrados anteriormente não foram mencionados no corpo da matéria.
Contei, sim, da difícil incursão ao Morro de Sapucaia, destaquei o valoroso
trabalho dos inspetores e investigadores de Sapucaia do Sul, mas também deixei
margem para futuras suítes (que em sínteses são pequena matérias que lembram o
caso e acompanham as investigações).
Aqui narrei um, apenas um e
tão somente um - dos tantos casos de reportagens policiais que tenho em
minha vida jornalística na editoria de polícia. Em breve darei aos
leitores deste seleto site do amigo Júlio o privilégio de lerem outras
aventuras.